João Pessoa-PB, 30/07/2010    Início  | Fale Conosco  | Mapa do Site
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Projeto de conservação do centro de primatas do IBAMA localiza espécie Kaapori no maranhão

O caiarara e o Gurupi
     Soltas – como são chamadas as pastagens - juquiras - outro termo regional para os remanescentes florestais extremamente degradados em conseqüência do corte seletivo e do fogo –, e reflorestamentos com eucaliptos, são os atuais componentes da paisagem da Amazônia Maranhense.  Um produto óbvio da rápida expansão da pecuária, da intensa e desregrada extração madeireira, da necessidade crescente de energia calorífica (carvão) para as siderúrgicas locais, do descaso com as terras públicas e da falta de investimento em cadeias produtivas compatíveis com a “floresta em pé”.  Da exuberante e biodiversa floresta que até algumas décadas cobria grande parte do noroeste Maranhense, resta hoje nada mais do que 30% de sua cobertura original, que continua diminuindo a cada dia.  Conceitos como Reserva Legal (RL) e Áreas de Preservação Permanente (APPs), previstos no Código Florestal Brasileiro deste 1965, parecem não existir.  Destaca-se que as matas ciliares ao longo de rios e igarapés - uma área típica de APP - poderiam garantir o mínimo de conectividade entre as populações selvagens dispersas nesta paisagem alterada, aumentando assim suas possibilidades de sobrevivência.
     O pouco da Floresta Amazônica que insiste em resistir encontra-se em Terras Indígenas (TIs), no caso, as TIs de Caru, Awá, Alto Turiaçu e Araribóia, e na incipiente e vulnerável Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi. Esta com cerca de 270 mil ha, foi criada há 18 anos e está sob administração do Ibama. Incipiente por ainda não ter sua situação fundiária resolvida, com a agravante de abrigar no seu interior vários projetos legais de assentamentos rurais posteriores ao decreto de criação desta Unidade de Conservação (UC). E vulnerável pelo tamanho e vasto perímetro difícil de ser fiscalizado. Embora seja visível a dedicação da atual chefia da unidade e da Superintendência do Ibama no Maranhão, mas sem um quadro de pessoal suficiente, pouco se pode fazer diante da dimensão das pressões, ficando a UC à mercê das atividades de extração ilegal de madeira, das invasões por “pequenos e grandes” posseiros, das queimadas e da caça.  Atividades, estas, que já vêm acontecendo na área há muito tempo.  A unidade já chegou a receber o triste título de a “Unidade de Conservação em pior situação do Brasil”.  Um breve olhar sobre as imagens de satélite da área desta UC explica este título. Agrega-se a este cenário o histórico conflito agrário inerente às frentes de expansão agrícola.
     Contudo, na área da Rebio Gurupi ainda são encontradas espécies exclusivas ou que hoje são raras em boa parte do País, como a ararajuba - ave símbolo do Brasil - a onça-pintada, a arara-azul, a anta, o cachorro-do-mato-vinagre, a harpia,  e sete espécies de macacos, entre estes o Cebus kaapori, um macaco conhecido popularmente como caiarara, cairara ou ainda macaco-cara-branca. Parente do macaco-prego (pertencem ao mesmo gênero), tem a particularidade de, junto com o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), serem as duas espécies de mamíferos mais ameaçados de extinção na Amazônia.
     O caiarara foi descrito cientificamente como espécie muito recentemente, em 1992, e, de imediato, considerado como “Criticamente em Perigo de extinção”, a categoria mais grave de ameaça.  Endêmico ao Brasil, sua restrita área de distribuição, a leste do rio Tocantins, no estado Pará, e a oeste de São Luis, capital do Maranhão, coincide com o chamado “Arco do Desmatamento”.  E, no entanto, muito pouco se conhece a respeito da biologia e do estado de conservação das populações silvestres desta espécie.
     O Centro de Proteção de Primatas Brasileiros – CPB/Ibama é um Centro Especializado em Fauna do Ibama, com o propósito de assistir a esta instituição nos assuntos relacionados à gestão e conservação dos primatas brasileiros.  Paralelamente, desenvolve atividades técnico-científicas visando o aprimoramento das ações do órgão para a conservação das espécies ameaçadas de extinção, para o manejo de populações selvagens, assim como para a condução de quaisquer outros eventos relacionados a populações selvagens ou cativas de espécies de primatas que requeiram intervenção institucional. Uma das principais linhas de atuação do CPB são os estudos de inventário e mapeamento das áreas de ocorrência de populações selvagens de espécies de primatas ameaçados, e que se encontram à margem da produção científica brasileira.  Desta forma, dada a crítica situação do caiarara, no ano de 2005 iniciou-se o PROJETO KAAPORI.  O objetivo maior deste estudo é responder a mais elementar questão para a conservação de uma espécie: “quantas são e onde estão as suas populações remanescentes?”.  Os resultados destas pesquisas devem ser aplicados em ações efetivas de conservação, envolvendo os diversos atores sociais envolvidos.  O Projeto Kaapori é inicialmente desenvolvido no estado do Maranhão, mas deve se estender ao Pará.
     A coleta de informações no Projeto Kaapori ocorre durante expedições de vários dias às possíveis áreas de ocorrência da espécie, quando são entrevistadas pessoas das comunidades locais (agricultores, fazendeiros, pescadores, índios, quilombolas e vaqueiros), bem como técnicos de extensão rural e de órgãos governamentais atuantes na região, como por exemplo, Funai, Funasa e Ibama.  O trabalho de campo pauta-se na busca e no registro de remanescentes florestais, utilizando as informações obtidas nas entrevistas para rastrear as populações de caiarara.
      Até o momento, quatro expedições já foram realizadas, totalizando mais de cinco mil quilômetros percorridos no estado do Maranhão.  As expedições visitaram áreas do centro-norte, norte e oeste maranhense, com vegetação de Cerrado, mata de transição (pré-Amazônia) - caracterizada pela densa associação de palmeiras, em especial o coco-babaçu, e espécies arbóreas amazônicas - e Floresta Amazônica.  As duas últimas localmente reconhecidas como região dos cocais e do Gurupi, respectivamente.
     Como resultados preliminares, foram identificadas apenas oito localidades com indicação consistente de ocorrência da espécie.  Destas áreas, três estão em Terras Indígenas. Até o momento, a espécie não foi encontrada em nenhuma Unidade de Conservação que não seja a Rebio Gurupi, onde também parece ser raro ou em baixas densidades.  As demais áreas de floresta com possível ocorrência da espécie são particulares e estão sob risco iminente de desaparecimento.  Os relatos de extinção local foram recorrentes e remetiam para os anos 1980 o desaparecimento da maioria das populações selvagens de caiarara.  As informações fornecidas pelos entrevistados sugerem que a espécie seja bastante intolerante à presença humana.  Além da ação negativa da perda e fragmentação dos hábitats remanescentes, sendo a espécie um macaco de porte razoável, a caça de subsistência parece ser um dos fatores mais importantes na diminuição ou extinção das populações de caiarara na região.
     Durante expedição à Rebio do Gurupi, realizada em outubro deste ano, em busca do caiarara com o apoio da Superintendência do Ibama no Maranhão, foi possível observar in loco todos os aspectos acima mencionados e ter uma dimensão clara da magnitude da degradação ambiental a que esta Reserva está sujeita.  Face ao grande desafio aqui exposto, com respeito à Rebio do Gurupi, o Ibama só conseguirá vencê-lo, por meio de um programa de operação contínuo e em larga escala na área, com a participação de diversas entidades da sociedade, que junto com os atuais esforços do órgão, inibam as atividades ilícitas que vêm acontecendo nesta fundamental UC.  Uma operação que envolva diversas instâncias do Poder Público na tentativa de se garantir a efetividade e a perpetuidade desta área - teoricamente - protegida, já apontada como de grande importância para a conservação biológica por um workshop promovido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).  De qualquer forma, segue a busca por populações desconhecidas de caiarara em outras áreas do Maranhão.

Marcos de Souza Fialho (coordenador)
Juliana Gonçalves Ferreira
Plautino de Oliveira Laroque
Leandro Jerusalinsky

 
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