João Pessoa-PB, 09/09/2010    Início  | Fale Conosco  | Mapa do Site
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Um novo símbolo da conservação

 

A descoberta de uma nova espécie de macaco tití na Bolívia é um alerta sobre a urgência de preservar a vida silvestre, afirmam cientistas.

 

Tarija, Bolívia – A descoberta de uma nova espécie de macaco tití, batizado com o nom científico Callicebus aureipalatti, é um alerta aos seres humanos sobre a responsabilidade que temos para a conservação das áreas silvestres, afirmam seus descobridores. O macaco, conhecido pelo nome comum de lucachi, foi identificado no final de 2004 na margem oeste do rio Beni, na reserva boliviana parque Nacional de Madidi, pelo britânico Robert Wallace e o boliviano Humberto Gómez. O anúncio oficial da descoberta será feita em setembro na revista especializada Primate Conservation, editada nos Estados Unidos, que publicará um artigo de Wallace e Gómez, cientistas da Sociedade para a Conservação da Vida Silvestre (WCS), com sede em Nova York.

 

“Essa descoberta deve servir para que reflitamos sobre a importância da vida silvestre para a saúde humana e o esforço e recursos que necessitamos a longo prazo para conservá-la e evitar sua depredação”, disse Wallace ao Terramérica. É grande a alegria na comunidade científica mundial, ma, co-existe uma grande preocupação pelo iminente desaparecimento de outros primatas na África, Ásia e América Latina, entre eles o gorila (Gorilla gorilla) e o chimpanzé (Pan troglodytes verus). Wallace disse que “o fato de hoje em dia ser possível encontrar novas espécies de macacos em áreas silvestres do mundo demonstra que ainda há muito para se conhecer sobre a natureza do planeta e, quanto à Bolívia, representa um símbolo tangível do valor e particularidade do Parque Madidi como a área de maior biodiversidade do mundo”.

 

A palavra “aureipalatii”, usada para dar nome à nova espécie de macaco, significa “palácio de ouro”. Trata-se da tradução para o latim do nome inglês Golden Palace, correspondente a um cassino virtual da Internet que foi o maior doador, com US$ 650 mil, a um fundo fiduciário para a conservação do lucachi e de seu habitat natural, em um concursJosé Luis Alcázar o mundial organizado entre 24 de fevereiro e 4 de março. Wallace descreveu para o Terramérica algumas características do macaco, como sua bela coroa de pelo dourado, uma forte coloração alaranjada no pescoço e peito, patas rosadas e longa cauda. Este tití mede menos de 50 centímetros, pesa um quilo e gosta de comer frutas. “Vivem em pequenos grupos, são monógamos, as famílias têm no máximo quatro membros e são encontrados na parte mais densa da selva. Pelas manhãs, os casais trocam uma espécie de canto e se dão intermináveis abraços”, contou.

 

Na identificação do lucachi, a WCS trabalhou em sociedade com o ente estatal boliviano Serviço Nacional de Áreas Protegidas (Sernap) e a privada Fundação para o Desenvolvimento do Sistema Nacional de Áreas Protegidas da Bolívia (Fundesnap). Em outubro de 2004, biólogos da WCS descobriram na África outra espécie de primata, batizada de Lophocebus kipunji, perto do Parque Nacional Kitulo, na Tanzânia. No mundo sobrevivem atualmente 626 espécies de primatas. Destas, 133 são latino-americanas, das quais 23 habitam a Bolívia, incluindo o lucachi, que com sua descoberta somam 30 as espécies de tití descritas na América Latina. O Madidi, criado em 1995 é “uma jóia do mundo” segundo Wallace, tem mais de 1,8 milhão de hectares e é compartilhado por mais de 3.500 nativos tacana, chupianones, lecos e esse-ejas.

 

A impressionante diversidade de ecossistemas do parque inclui desde florestas tropicais até pastagens andinas. É uma faixa altitudinal em excelente estado de conservação de 180 a seis mil metros acima do nível do mar, e possui uma extensão importante de savanas virgens. Os companheiros de habitat do lucachi são, segundo Sergio Eguino, diretor do Fundesnap, populações saudáveis de jaguar (Panthera onça), lontras (Pteronura brasiliensis), jucumaris ou ursos-de-óculos (Tremarctos ornatus), mais de mil espécies de aves, grandes quantidades de orquídeas raras e outras plantas únicas. No Madidi há cerca de 1.100 espécies de aves, a diversidade mais importante registrada no mundo, e mais de cinco mil espécies vegetais.

 

Wallace ressalta a convivência harmoniosa das populações originárias do Madidi com a natureza e sua adaptação à conservação, uso e exploração sustentada do parque. Atualmente, seus moradores produzem café, cacau, mel e incenso, e está em estudo um plano de manejo sustentável para a exploração de madeira, a fim de evitar qualquer tentação de corte ilegal a serviço de interesses estrangeiros que em mais de uma ocasião tentaram depredar a reserva. O parque é considerado também um dos 10 melhores lugares do mundo para ecoturismo e turismo de aventura.

 

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS)

 José Luis Alcázar - Terramérica

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