João Pessoa-PB, 30/07/2010    Início  | Fale Conosco  | Mapa do Site
Busca no site:  


 
  Notícias

Estudo comprova que nova espécie de macaco no nordeste já era conhecida desde o século XVII


    Autoridades científicas reconhecem que a nova espécie de macaco-prego encontrada na zona da mata pernambucana e batizada de Cebus queirozi, é, na verdade, uma espécie descrita há 232 anos pelo naturalista alemão Johann  Schreber, e chamada originalmente de Simia flavia (macaco-dourado em latim). Na atualidade o seu nome correto é Cebus flavius, já que os macacos-prego pertencem ao gênero Cebus.
    A conclusão foi baseada em recente trabalho científico publicado no Boletim do Museu Nacional, RJ, de autoria de Marcelo Marcelino, do Centro de Proteção de Primatas Brasileiros (IBAMA) e Alfredo Langguth, da Universidade Federal da Paraíba, que há dois anos estudam o quebra-cabeças em torno desta espécie. Trata-se de uma pesquisa importante, séria, que resgata a história científica brasileira, aumenta em uma espécie o conhecimento da biodiversidade e resolve um mistério taxonômico secular, avalia o Dr. Anthony Rylands – Vice-Chefe do Grupo de Especialistas em Primatas da União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) e Diretor Sênior para o Programa de Espécies Ameaçadas do Centro de Ciências Aplicadas à Biodiversidade da Conservation Internacional, em Washington, D.C. (CABS/CI).

A história

    O naturalista alemão Georg Marcgrave, membro da comitiva do Conde Maurício de Nassau, que esteve no Nordeste Brasileiro entre 1637 e 1644, foi o primeiro a descrever o macaco na obra “Historiae Rerum Naturalium Brasiliae”, publicada em 1648. Marcgrave o descreveu como um animal “de pêlo mais longo, amarelo-claro”, a quem chamou de “caitaia”. Uma pintura atribuída a Albert Eckhout, artista plástico que também esteve no Brasil com Nassau, retrata com fidelidade o mesmo macaco-prego. A descrição de Marcgrave, entretanto, não pôde ser considerada cientificamente válida, porque é anterior ao Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, instituído por Carl Linnaeus em 1758. O Código define as regras para nomeação de espécies, tornando válidos apenas os nomes publicados após esta data.
Em 1774, Johann Schreber, pintou o exemplar da espécie que veio a chamar Simia flavia. Schreber, porém, não guardou em coleção científica o animal pintado nem informou a sua procedência exata, sabendo-se apenas que se tratava de um animal vindo do Brasil. Mesmo assim, vários naturalistas do século XIX, como John B. Fischer (1829), Lorenz Oken (1833) e Karl F. Von Martius (1867), viram claras semelhanças entre o animal pintado por Schreber, já rebatizado de Cebus flavius pelo francês Ethienne Geoffroy (1812), e o macaco descrito por Marcgrave em 1648. Mas a falta de um exemplar em coleção levou a maioria dos cientistas a duvidar da existência de Simia flavia. Marcelino e Langguth, porém, demonstraram que a pintura de Schreber retrata características morfológicas de um animal idêntico aos macacos-prego encontrados na Mata Atlântica do Nordeste. Segundo o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, as espécies nomeadas após 1758 e descritas com base em pinturas e ilustrações feitas até 1931, são consideradas válidas para ciência. Assim, Simia flavia, ou melhor, Cebus flavius, é o nome correto para a espécie de macaco-prego encontrada na zona da mata do Nordeste. Trata-se, portanto, da redescoberta de uma espécie, que foi considerada um mistério para ciência durante 350 anos.

O gênero Cebus

    O gênero Cebus, ao qual pertencem todas as espécies de macacos-prego, é um dos mais confusos de serem estudados pelos cientistas. São reconhecidas atualmente 11 espécies, agora 12 com a redescoberta de Cebus flavius. Com exceção de apenas uma espécie, todas ocorrem no Brasil. A complexidade no estudo taxonômico destes animais deve-se a grande variação no padrão de coloração da pelagem que cada espécie apresenta. No estudo que levou a redescoberta de Cebus flavius, os pesquisadores examinaram diversos exemplares de macacos-prego nas coleções científicas do Museu Nacional no Rio de Janeiro e do Museu da USP em São Paulo, compararam com espécimes da natureza e animais resgatados pelo Ibama de cativeiros ilegais e, por fim, mergulharam em 350 anos de literatura científica, consultando mais 30 obras de autores do século XVII ao século XXI. José de Sousa Silva Júnior, pesquisador do Museu Emílio Goeldi no Pará e autor do mais recente e completo estudo de revisão sistemática do gênero Cebus, explica que este trabalho é de suma importância para a ciência e para a conservação. Do ponto de vista científico, esclarece uma questão crucial para a compreensão da diversidade de um gênero extremamente complexo e confuso em termos de sistemática e taxonomia. Também oferece uma solução para o preenchimento de matrizes em estudos biogeográficos.

Cebus flavius

    Cebus flavius ocorre na Mata Atlântica do Nordeste do Brasil, habitando remanescentes de floresta nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. São conhecidas atualmente 8 populações espalhadas nestes estados. Embora as informações atuais sejam insuficientes para uma avaliação séria sobre o grau de ameaça da espécie, ela certamente deverá fazer parte da lista das espécies brasileiras ameaçadas, avalia Marcos Fialho, pesquisador do Centro de Proteção de Primatas Brasileiros (CPB). O CPB, órgão do Ibama especializado na pesquisa e conservação de primatas, está monitorando a entrada de exemplares desta espécie nos Centros de Triagem de Animais Silvestres do Ibama em todo Nordeste, resgatados de cativeiros ilegais. Até agora o Ibama mantém sob sua guarda 14 exemplares, número modesto para a quantidade de animais que ainda devem ser recolhidos, segundo a expectativa dos técnicos. Um programa para manutenção de uma população cativa genética e demograficamente viável, utilizando os animais resgatados, já está sendo montado. O Centro de Conservação de Fauna do Zoológico de São Paulo será a primeira instituição a integrar o programa, recebendo ainda este mês o primeiro grupo de animais. Este programa deverá ser apresentado e discutido na reunião do Comitê Internacional para Conservação e Manejo dos Primatas do Norte da Mata Atlântica e da Caatinga, prevista para 2007, quando se espera o envolvimento de zoológicos dos Estados Unidos e Europa no programa.

                                                      Boletim do Museu Nacional - Rio Janeiro

Comunicação & Marketing
 
ICMBIO/CPB - Praça Antenor Navarro Nº 5 - Varadouro - Centro Histórico - João Pessoa-PB - CEP: 58010-480